• Livro

    Amar – Carlos Drummond de Andrade

    Que pode uma criatura senão,
    entre criaturas, amar?
    amar e esquecer, amar e malamar,
    amar, desamar, amar?
    sempre, e até de olhos vidrados, amar?

    Que pode, pergunto, o ser amoroso,
    sozinho, em rotação universal,
    senão rodar também, e amar?
    amar o que o mar traz à praia,
    o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
    é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

    Amar solenemente as palmas do deserto,
    o que é entrega ou adoração expectante,
    e amar o inóspito, o cru,
    um vaso sem flor, um chão de ferro,
    e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
    uma ave de rapina.

    Este o nosso destino: amor sem conta,
    distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
    doação ilimitada a uma completa ingratidão,
    e na concha vazia do amor a procura medrosa,
    paciente, de mais e mais amor.

    Amar a nossa falta mesma de amor,
    e na secura nossa amar a água implícita,
    e o beijo tácito, e a sede infinita.

    JosyAssinatura

  • Livro

    Organiza o Natal – Carlos Drummond de Andrade

    Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

    Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

    Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

    A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

    A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

    Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

    O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

    Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

    A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

    O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

    E será Natal para sempre.

    Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.

    Texto extraído do livro “Cadeira de Balanço”, Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

    JosyAssinatura

     

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    Um livro – João Pedro Mésseder

    Levou-me um livro em viagem
    não sei por onde é que andei
    Corri o Alasca, o deserto
    andei com o sultão no Brunei?
    P’ra falar verdade, não sei

    Com um livro cruzei o mar,
    não sei com quem naveguei.
    Com marinheiros, corsários,
    tremendo de febres e medo?
    P’ra falar verdade não sei.

    Um livro levou-me p’ra longe
    não sei por onde é que andei.
    Por cidades devastadas
    no meio da fome e da guerra?
    P’ra falar verdade não sei.

    Um livro levou-me com ele
    até ao coração de alguém
    E aí me enamorei –
    de uns olhos ou de uns cabelos?
    P’ra falar verdade não sei.

    Um livro num passe de mágica
    tocou-me com o seu feitiço:
    Deu-me a paz e deu-me a guerra,
    mostrou-me as faces do homem
    – porque um livro é tudo isso.

    Levou-me um livro com ele
    pelo mundo a passear
    Não me perdi nem me achei
    – porque um livro é afinal…
    um pouco da vida, bem sei.

    João Pedro Mésseder em O G é um gato enroscado

    JosyAssinatura

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    Urgentemente – Eugénio de Andrade

    É urgente o amor
    É urgente um barco no mar

    É urgente destruir certas palavras,
    ódio, solidão e crueldade,
    alguns lamentos, muitas espadas.

    É urgente inventar alegria,
    multiplicar os beijos, as searas,
    é urgente descobrir rosas e rios
    e manhãs claras.

    Cai o silêncio nos ombros e a luz
    impura, até doer.
    É urgente o amor, é urgente
    permanecer.

    Eugénio de Andrade, em “Até Amanhã”

    JosyAssinatura

  • Livro

    Canção de Outono – Cecília Meireles

    Perdoa-me, folha seca,
    não posso cuidar de ti.
    Vim para amar neste mundo,
    e até do amor me perdi.

    De que serviu tecer flores
    pelas areias do chão,
    se havia gente dormindo
    sobre o próprio coração?

    E não pude levantá-la!
    Choro pelo que não fiz.
    E pela minha fraqueza
    é que sou triste e infeliz.
    Perdoa-me, folha seca!
    Meus olhos sem força estão
    velando e rogando àqueles
    que não se levantarão…

    Tu és a folha de outono
    voante pelo jardim.
    Deixo-te a minha saudade
    – a melhor parte de mim.
    Certa de que tudo é vão.
    Que tudo é menos que o vento,
    menos que as folhas do chão…

    Cecília Meireles

    JosyAssinatura

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    Presságio – Fernando Pessoa

     O AMOR, quando se revela,
    Não se sabe revelar.
    Sabe bem olhar p’ra ela,
    Mas não lhe sabe falar.

    Quem quer dizer o que sente
    Não sabe o que há de dizer.
    Fala: parece que mente…
    Cala: parece esquecer…

    Ah, mas se ela adivinhasse,
    Se pudesse ouvir o olhar,
    E se um olhar lhe bastasse
    P’ra saber que a estão a amar!

    Mas quem sente muito, cala;
    Quem quer dizer quanto sente
    Fica sem alma nem fala,
    Fica só, inteiramente!

    Mas se isto puder contar-lhe
    O que não lhe ouso contar,
    Já não terei que falar-lhe
    Porque lhe estou a falar…

     Fernando Pessoa

    JosyAssinatura

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    Soneto de Fidelidade – Vinícius de Moraes

    De tudo, ao meu amor serei atento
    Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
    Que mesmo em face do maior encanto
    Dele se encante mais meu pensamento

    Quero vivê-lo em cada vão momento
    E em seu louvor hei de espalhar meu canto
    E rir meu riso e derramar meu pranto
    Ao seu pesar ou seu contentamento

    E assim quando mais tarde me procure
    Quem sabe a morte, angústia de quem vive
    Quem sabe a solidão, fim de quem ama

    Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
    Que não seja imortal, posto que é chama
    Mas que seja infinito enquanto dure

     Vinícius de Moraes

    JosyAssinatura